Internet é nova ferramenta polÃtica nos EUA
Stephen Baker, Heather Green e Robert D. Hof BusinessWeek, de Nova York e San Mateo, Califórnia
Chris Lilik, 24 anos, é um comitê de ação polÃtica concentrado num homem só. Operando um computador veloz montado por ele mesmo, esse estudante de direito da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, trabalha como louco para estruturar uma base de ativistas em apoio à candidatura de Patrick J. Toomey (republicano de Pasadena) ao Senado dos Estados Unidos.
Lilik despacha e-mails para 500 aliados conservadores que constam de sua lista de endereçamento, mobilizando-os com o objetivo de promover a candidatura de Toomey pelos republicanos, e não Arlen Specter, um moderado que já teve quatro mandatos.
Esse estudante de direito e seus amigos conseguiram que mais de 800 pessoas se inscrevessem as reuniões virtuais, ou “meetups” – a última palavra em ativismo via internet. “Esse número de voluntários é maior que o contingente de participantes em qualquer meetup de apoio a um candidato não-presidencial em todo o território americano”, diz Joe Sterns, assessor de imprensa de Toomey. “Tudo isso se deve à iniciativa desse estudante de direito. Praticamente nada tivemos a ver com isso.”
Com a era da internet entrando em seu terceiro ciclo presidencial, a web está se transformando numa poderosa ferramenta polÃtica. É verdade que a campanha pela internet de Howard Dean, ex-governador de Vermont, implodiu. Mas ele saiu do nada alavancado pelos novos serviços disponÃveis na rede, de meetups a weblogs, ou blogs.
O colapso de Dean não dissuadiu a deputada Sue Myrick (republicana da Carolina do Norte) de contratar a Convio, empresa de Austin, Texas, fornecedora do software usada pela campanha de Dean para gerenciar seu site. O que ela pediu foi um pacotão da mesma mágica, e deu um passo adiante, montando um estúdio de TV em seu escritório, para gravar comerciais a serem exibidos via web. “Vamos montar diversos comerciais para sete diferentes públicos-alvo e enviá-los semanalmente”, explica Hal Weatherman, chefe de gabinete de Myrick.
A web está não apenas acelerando a velocidade da polÃtica, mas também modificando sua dinâmica. O poder no mundo em rede é difuso. Apenas uma década atrás, um voluntário dedicado como Lilik ficaria na dependência de pessoas de campanha para obter panfletos, adesivos para pára-choques e receber palavras de ordem. Hoje, a web está permitindo que ele e outros ativistas de internet assumam o controle de campanhas, montem grupos de correligionários e levantem dinheiro.
Um bom exemplo é o site MoveOn.org. No ano passado, esse grupo ativista liberal ajudou a organizar as maiores manifestações já registradas contra uma guerra, com 10 milhões de participantes em todo o mundo. Agora, o braço polÃtico da organização, com sede em Berkeley, Califórnia, com 2 milhões membros participantes via e-mail, está promovendo uma campanha contra o presidente George W. Bush, na televisão, a um custo de US$ 10 milhões.
Exibe comerciais produzidos e enviados por e-mail para a MoveOn por seus filiados. No inÃcio de março, a equipe de Bush questionou a legalidade dos peças publicitárias polÃticas criadas improvisadamente pela MoveOn e por outros grupos, dizendo que driblam as novas leis de financiamento de campanha.
Enquanto os advogados se engalfinham, tanto o presidente como John F. Kerry, o senador democrata por Massachusetts que deve disputar a Presidência com Bush, elaboram suas próprias estratégias de web. Kerry, que reuniu-se com Dean em 10 de março, tenta copiar o êxito do ex-candidato na internet, acolhendo positivamente os bloggers e incentivando milhares de voluntários a se inscreverem nos meetups. Sua tática começa a dar resultados. Sua campanha captou uma média de US$ 1 milhão/ dia, via internet, nos dez dias que se seguiram à SuperTerça, em 2 de março.
Grande parte do poder das campanhas migrará dos candidatos para os grupos que os sustentam, prevêem especialistas
Bush, porém, tem uma forte liderança em recursos high-tech. Os republicanos têm vantagem de 3 para 1 em termos de listagens de endereços de e-mail e um website bem sintonizado, visando organizar, em vez de captar recursos. Em dezembro, GeorgeWBush.com inaugurou um serviço que dá canecas e fotos assinadas pelo presidente a pessoas que atingirem metas, como recrutar dez voluntários ou registrar cinco eleitores.
Por que a web é mais relevante nesta campanha? Milhões de americanos agora passam grande parte de sua vida conectados, e 20% da população tem acesso de banda larga à internet em seus domicÃlios. Pagamentos na internet, antes raros, se tornaram corriqueiros. Conexões mais rápidas permitem a transmissão de vÃdeo, recurso para mensagens de maior impacto do que apenas palavras.
Talvez o mais importante sejam as conexões online no trabalho. Embora os funcionários pareçam estar empenhados em suas tarefas, muitos estão lendo blogs, trocando e-mails polÃticos e clicando no botão “Contribuir”.
Num mundo polÃtico conectado em rede, grande parte do poder provavelmente migrará dos candidatos para os grupos que os circundam e os sustentam. Correligionários conectados digitalmente agora operam prodigiosas ferramentas de comunicações.
O teórico social Howard Rheingold prevê que o poder, na era da informação, crescerá em torno de grupos de pessoas interligadas em redes e organizadas por trás de uma só idéia, de polÃtica a moda, e conectadas usando a internet e telefones celulares. Ele as denomina Smart Mobs (literalmente, Bandos Inteligentes), e prevê que elas vão ganhar forma.
Pequenas forças polÃticas podem crescer na internet e se equiparar a grandes sindicatos e grupos de pressão bem consolidados
Embora o uso de mensagens móveis ainda não tenha decolado, nos EUA os americanos estão criando seus próprios “bandos inteligentes” baseados na internet. “Se se juntar esses voluntários, que se auto-organizaram a um custo zero, com uma tarefa que precise ser cumprida, isso poderá resultar numa combinação poderosa”, diz Rheingold.
O mais provável é que esse ativismo polÃtico high-tech seja abraçado pelas extremas esquerda e direita, que se expressam por meio de mensagens inflamadas. Por isso, não é de surpreender que Toomey, o candidato de Lilik, um conservador intransigente, seja um nome que incendiou a internet. Seu movimento está provocando o surgimento de uma série de websites e conquistando o apoio de grupo de direita de abrangência nacional, como o RightMarch.com.
A ascensão da internet polÃtica também está começando a fazer pender a balança demográfica do poder. As pessoas mais familiarizadas com informática, muitas delas jovens, ganham uma voz e podem mover massas. Grupos como o MoveOn já estão atraindo correligionários não apenas para obter dinheiro e apoio polÃtico, mas também para engajar pessoas capacitadas a lidarem com vÃdeo, interligação de computadores em rede e até mesmo projeto de software.
Em termos de custos, o ativismo polÃtico na internet é imbatÃvel. O total de gastos de Dean com a internet, incluindo salários, mal ultrapassou US$ 1 milhão, estima um ex-funcionário da organização. Isso significa que o esforço captou quase um dólar para US$ 0,05 gasto – retorno muito mais do que os 65%, em média, levantados em um tradicional banquete de arrecadação de fundos.
Além disso, levantar dinheiro online não toma tempo do candidato e acessa um grande número pequenos contribuintes que não esperam favores em troca. “Muitos candidatos não param de pedir à sua campanha que faça todo o possÃvel para manter esse dinheiro online”, diz Ravi Singh, CEO da consultoria ElectionMall Technologies, de Chicago.
Neste inÃcio da maratona Kerry-Bush que durará sete meses, o presidente pretende ampliar sua liderança na internet. O Partido Republicano, com sua longa história de ativismo via mala-direta, tem muito mais experiência em desmembrar sua lista em grupos-alvo, como os que defendem menos impostos e ativistas anti-aborto. O plano é consolidar essa base durante a longa campanha, incluindo mais nomes associados a endereços de e-mail e incentivando voluntários a telefonarem para emissoras de rádio conservadoras, escreverem cartas aos órgãos de imprensa e irem de porta em porta falando em defesa da chapa de Bush.
Os republicanos estão até experimentando trabalhar com sistemas de mensagens instantâneas para criar vÃnculos atualizados segundo-a-segundo entre pequenos grupos, diz Max Fose, sócio na consultora Integrated Web Strategy.
Os democratas, em contrapartida, enfrentam dificuldades para se igualar aos adversários em termos de presença na internet. Segundo fontes bem informadas do próprio partido, os democratas dependeram bastante de seu controle da Casa Branca para mobilizar correligionários durante a década de 90. Kerry, que usou a internet muito menos que Dean, defronta-se com uma Ãngreme curva de aprendizagem. O virtual candidato democrata arregimentou apenas 33 mil voluntários online, segundo Morra Aarons, sua porta-voz de campanha.
As abordagens mais inovadoras no uso da internet provavelmente virão dos ativistas em rede. Com a reforma de financiamento de campanhas brecando o fluxo do chamado “soft money” (doações polÃticas feitas para partidos, em vez de candidatos ou campanhas especÃficas, para burlar limites e regulamentos federais), grande parte do dinheiro vai direto para os grupos ativistas que operam na internet.
Eles podem se concentrar numa única mensagem, uma estratégia adequada ao caráter da web. E inovam constantemente. Depois que o cantor country Willie Nelson lançou uma canção contra a guerra, Aaron Sain, membro da RightMarch.com, gravou Hey Hollywood, uma resposta conservadora elogiando o presidente Bush. O RightMarch enviou o endereço de armazenamento da música para seus membros, e cerca de 20 mil pessoas fizeram o download para seus computadores.
Mesmo com a ascensão da internet, a TV continua sendo a chave para atingir eleitores indecisos. Segundo a TNS Media Intelligence/CMR, os gastos com televisão nesta temporada polÃtica deverão chegar à casa de US$ 1,1 bilhão, muitÃssimo mais, portanto, que os milhões gastos na internet. Diferentemente da web, a televisão alcança praticamente todos os domicÃlios americanos. Ela tem o poder de conquistar a atenção do telespectador e oferece imagens muito mais envolventes e persuasivas do que uma conexão de banda larga à internet.
“A TV continua sendo o meio mais eficiente. Interrompe o que as pessoas estão fazendo”, diz Robert M. Stern, presidente do Center for Governmental Studies, organização de pesquisas em Los Angeles. “Mas a internet rende muito mais pelo que custa”.